quinta-feira, 26 de junho de 2008

Gotas de Orvalho

Olhei-te e o teu corpo não era de carne, mas de uma doçura quase vegetal
onde as pétalas e o orvalho misturavam suas gotículas transparentes.
Levemente as células transformaram-se em veludo de tom arroxeado que eu
beijei, primeiro com suavidade e a crença aprensiva que se tem ao sangue.
Depois, com a certeza de que aquele corpo era só nosso e só a nossa boca
nele podia poisar. Intacta, sem se ferir. Dormias. Calma. Mas no silêncio,
eclodiu uma corda musical e na língua senti a estranheza do seu frio. Queria
sorver-te, como às gotas desse sangue que, por vezes, os espinhos deixam
nos meus dedos, num frenesim de vida quando colho as rosas.
Desdobrei a roupa para melhor te fruir. O umbigo bem desenhado estava
embutido na macieza da ondulação da curva do teu ventre. Um suave odor
penetrava-me as narinas, adoçando-as.
Este era o meu corpo - branco e puro. Tacteei-te, porque trazia perfumes na
polpa dos dedos. E entornei-os, um a um, como quem toca nas teclas dum
piano, dando-lhes um estado subtil de vida. Não sabia ainda que, tu própria,
o tinhas calado. Por dentro.
Estavas deslumbrante, entregue, sobre a cama, como uma gema de ametista,
arroxeada.
Faltava-me o brilho dos teus olhos, sempre acesos. Alimentados por um
braseiro que só em ti descobri e que se adoçava cada dia mais, na luz
trémula da chama da vela. Tínhamos visto as velas roxas com brilhos
reconvertidos dos postais antigos. Poisei-as no mesmo momento e que soube
que nunca mais faríamos amor. Mas também sabia que voltaria lá para as ir
buscar. Queri-as para gozar a chama tentadora, e ve-las gastarem-se por
entre os perfumes consignados ao acto amoroso...
Chove. E a água afasta os pássaros para longe. Num despojamento, tangendo
a música inaudível das tuas vésperas. Tocada em instrumentos que não vejo,
na repercussão que me espanta tu não oiças. Nem eu.
Fico à espera que me chames. Que me devolvas o nome. O que só tu sabes.
Eu sou ele, o nome.
...Mas tu não o fazes!

Safira

2 comentários:

Flávio Monte disse...

Os seus dois textos poéticos são sentidos e plenos de imagens, como o texto em prosa. Pessoalmente, gosto mais da sua "Rosa Amarela". Esse estilo, em prosa, assenta-lhe perfeitamente. Mas isto não passa de uma humilde opinião, nada mais.

P.S. - Os seus caracteres não se destacam muito do fundo amarelo.

Safira disse...

Olá Flávio!

Já mudei a cor do texto, realmente via-se mal, obrigada pelo seu comentário, que tenho sempre em muita consideração...

Venha sempre, que será bem vindo.

Obrigada, abraço!

Safira