quarta-feira, 3 de fevereiro de 2010

No Fundo Florestal do Dia



O acto simples da aranha que tece uma estrela na penunbra,
o peso elástico do gato em direcção à borboleta,
a mão que resvala no lombo morno do cavalo,
o olor sideral da flor do café,
o sabor azul da baunilha,
detêm-me no fundo do dia.

Há um resplendor côncavo de fetos,
uma ressonância de insectos,
uma presença cambiante de água nos recantos pétreos.

Reconheço aqui minha idade feita de sons silvestres,
de lume de orquídea,
de cálido espaço florestal, onde o pica-pau faz soar o tempo.
Aqui o entardecer inventa uma rubra pedraria,
uma constelação de pirilampos,
uma queda de folhas lúcidas nos sentidos,
rumo ao fundo do dia,
onde se encantam meus ossos agrestes.

Vicente Gerbasi
(Trad.: José Bento)

domingo, 10 de janeiro de 2010

Bichos Marginais


Hálito de terra depois da chuva:
cálida ternura
aflorando
do lábio

Teu corpo
leveza que pesa
um saber sábio
secreto
da Natureza

Por isso os bichos te amam
em suas falas naturais:
os felinos
os caprinos
e os poetas - bichos marginais

Luís Veiga Leitão

sexta-feira, 25 de dezembro de 2009

Boas Festas!


Noite...


Encontraram-no caído
Ao fundo daquela rua;
Chamaram-no pelo nome, e era eu!
- O poeta andava à lua
E adormeceu...

Foi o que disse e jurou
Pela sua salvação
A Perdida
Que viu tudo da janela...
E o guarda soube por Ela,
Pelo pranto que chorava,
Quem era na minha vida
O Guarda que me guardava...

-Andar à lua é proibido...
Mas Ela pagou a lei
Por um beijo que lhe dei
Antes ou depois de ter caído,
Nem eu sei...

Miguel Torga

segunda-feira, 21 de dezembro de 2009

Boas Festas!


Feliz Natal e que o Novo Ano de 2010 nos traga mais esperança e alegrias...


Abraço Natalício!

sexta-feira, 23 de outubro de 2009

Oriente

Este lugar amou perdidamente
Quem o cabo rondou do extremo Sul
E a costa indo seguindo para Oriente
Viu as ilhas azuis do mar azul
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Viu pérolas safiras e corais
E a grande noite parada e transparente
Viu cidades nações viu passar gente
De leve passo e gestos musicais

Perfumes e tempero descobriu
E danças moduladas por vestidos
Sedosos flutuantes e compridos
E outro nasceu de tudo quanto viu
..........................................................

Sophia de Mello Breyner Andresen

quarta-feira, 14 de outubro de 2009

Guitarra

Começa o choro
da guitarra.
Partem-se as copas
da madrugada.
Começa o choro
da guitarra.
É inútil calá-la.
É impossível
calá-la.
Chora monótona
como chora a água,
como chora o vento
sobre a nevada.
É impossível
calá-la.
Chora por coisas
distantes.
Areia quente do Sul
pedindo camélias brancas.
Chora a flecha sem alvo,
a tarde sem manhã,
e o primeiro pássaro morto
nas ramadas.
Oh, guitarra!
Coração malferido
por cinco espadas.

Frederico Garcia Lorca
(Trad.: Eugénio de Andrade)